Crianças que não vão bem na escola

"Todas as crianças são boas, e seus pais também".       Bert Hellinger

 

Alguns exemplos das possibilidades da abordagem de Bert Hellinger às dificuldades encontradas por pais, professores e profissionais do ensino.


Uma das grandes dificuldades por que passam as famílias hoje em dia é quanto a crianças que não vão vem na escola. Tais crianças recebem freqüentemente rótulos diversos, conferidos a elas por médicos, pedagogos, psicopedagogos, psicólogos, psiquiatras, professores e outros. Os nomes são variados: “disléxicos”, “síndrome do déficit de atenção”, “hiperatividade”, “lento para o processo pedagógico”, ou simplesmente “encapetado” ou “difícil”.

 




Tais nomes e diagnósticos remetem a um repertório de medidas de apoio e ajuda, medicações e outros tipos de propostas de solução cujos resultados são muitas vezes desanimadores.

No rastro de tantos rótulos e pontos de vista sobre as “causas” do problema, encontramos pais desesperados e professores impotentes frente a algo que muitas vezes é tomado como “sem solução”, mesmo que isso não seja dito abertamente.

No silêncio de sua alma, os professores e os pais freqüentemente se acusam mutuamente pelo problema da criança, gerando uma postura que dificulta ainda mais o diálogo claro e a busca de soluções possíveis.

Este artigo não visa propalar uma panacéia ou solução imediatista e fácil para algo que é grande, complexo e multifacetado. Mas busca ser uma singela contribuição onde pais e professores possam buscar alguma orientação, quando talvez as ferramentas já utilizadas não tenham funcionado tão bem.

O trabalho pioneiro de Bert Hellinger e de outros que seguiram seus passos e aplicaram sua metodologia ao campo da educação e das escolas tem mostrado como os acontecimentos familiares remotos ou próximos afetam profundamente a alma da criança e como muitas vezes é possível, com uma postura apropriada, encontrar uma solução simples (mas nem sempre fácil) para problemas de aprendizagem e comportamento inapropriado na escola.

Existe hoje literatura apropriada em português sobre o tema, especialmente o livro de Mariane Franke – Você é um de nós – Ed. Atman (www.atmaneditora.com.br) e sugerimos ao leitor interessado que busque esse excelente livro.

O que vamos relatar é parte de nossa experiência com a abordagem de Hellinger em alguns casos de consultório e ambulatório.



Caso 1 – “Estou escutando seu coração”



Uma menina aparentemente saudável de 12 anos, foi trazida ao ambulatório de pediatria da rede pública (onde eu atendia) devido a problemas de “dificuldade de aprender” e “dores no peito”, acompanhada de sua tia, irmã da mãe.

O exame clínico não revelava nada de especial ou específico. Para todos os fins parecia uma criança normal, exceto pelo olhar um pouco triste e distante. O exame cardiológico era normal, mas apesar disso solicitei um RX de tórax e um eletrocardiograma.

No retorno, vendo que os exames eram normais, me surgiu a idéia de perguntar mais sobre a família da criança. A tia me relatou que a menina estava morando com ela para poder estudar, pois os pais viviam numa zona rural distante, onde não havia condições para que freqüentasse a 6ª. Série. Contou ainda que ela só ficava feliz quando ia de férias para a casa dos pais, e que ela chorava muito quando devia voltar para a escola ao final das férias. Já estava morando com essa tia há 1 ano e meio e ia mal na escola nos últimos 6 meses.

Percebendo então o amor dessa criança pelos pais, resolvi fazer uma intervenção. Pedi a ela que se deitasse na maca de exame e auscultei novamente seu tórax com o estetoscópio. Então olhei seriamente para ela e disse “Estou escutando seu coração e ele me disse algo muito importante – um segredo!”. A menina arregalou os olhos e perguntou surpresa, completamente séria e crédula “O que ele disse pro Sr.?” “Ele me disse que anda doendo de saudade pelos seus pais” respondi.

A menina me olhou seriamente, sem nada dizer, mas com olhos cheios de lágrimas. Então acrescentei “Mas o seu coração também me contou o quanto a sua mãe fica feliz por você ter a oportunidade de estudar e ter uma vida mais leve que a dela, mesmo quando ela fica um pouquinho triste por estar longe de você.” A menina me olhou bem nos olhos e disse “É verdade?”. Eu disse a ela “O seu coração pode falar mais com você do que comigo – pergunte a ele!” Ela ficou em silêncio alguns instantes, sentou-se na maca e depois sorriu abertamente, me deu um abraço espontâneo e desceu da maca. Sentou-se ao lado da tia e disse “Podemos ir embora – estou boa agora.”



As dores no peito desapareceram e ela melhorou quase imediatamente na escola.



Caso 2 – “Eu não agüento mais esse menino...”



Uma mãe trouxe o filho de 11 anos para uma sessão de aconselhamento. Entrou quase aos gritos e tão logo fechou a porta atrás de si, empurrou o menino para o assento e começou imediatamente a falar bem alto “Eu não agüento mais esse menino... e não sou só eu ... a professora não agüenta, a orientadora não agüenta, a diretora não agüenta, ninguém agüenta... e eu estou aqui hoje com o Sr. como a última esperança. Se o Sr. não puder fazer nada, eu desisto!”. Pedi à mãe para se sentar e olhei detidamente para ambos, especialmente para o menino, sentado em silêncio, que me olhava visivelmente amedrontado. A minha impressão imediata foi de simpatia por ele. Fiz algumas perguntas sobre os hábitos dele, tentando evitar focar no comportamento difícil. A mãe, entretanto, não estava disposta a olhar para mais nada exceto o lado “ruim” do filho. Fiz então a pergunta “clássica” nesses casos: “Onde está o papai dele?”. Veio então a resposta “clássica”: uma seqüência de palavrões e insultos ao homem. Disse ainda que ele era caminhoneiro e que a havia abandonado com o menino quando esse tinha 3 anos.

Solicitei de imediato e com muito tato que o menino aguardasse na sala de espera enquanto eu “conversava sobre um assunto de gente grande com a mamãe”.

Tão logo o menino se retirou eu perguntei à mãe sobre fatos importantes da família de origem dela. Ela me contou então que tanto a mãe dela quanto sua avó materna haviam ficado viúvas bem jovens. Eu perguntei a ela então “Como se sente uma mulher que conseguisse ficar com o marido em relação a sua mãe e sua avó que não puderam manter os seus maridos?” A mãe ficou surpresa e disse “Muito mal!”

Então eu disse a ela que imaginasse que o pai do menino estivesse num canto da sala e pedi que ela olhasse para ele durante algum tempo, em silêncio. Sugeri que eu iria dizer a ela algumas frases, que ela deveria repetir somente se “concordasse” com elas. A cliente concordou em seguir dessa forma.

A partir daí, com ela “olhando” para o marido, pedi que ela repetisse: “Eu procurei você por muito tempo antes de me casar com você”

A cliente repetiu a frase e disse para mim “É verdade doutor! Eu tive muitos pretendentes, mas escolhi esse homem depois de procurar muito!”

Em seguida pedi a ela que repetisse “E eu já sabia que você não iria ficar, mas foi muito bom enquanto estive com você. Eu te amei muito” Ela repetiu isso, muito emocionada.

Eu perguntei “Você alguma vez já contou isso para o seu filho?” E ela disse “Nunca”.

Fui até a sala de espera e chamei o menino de volta. Pedi à mãe que dissesse a ele o que havia acabado de falar.

Ela disse ao menino “Eu amei muito o seu papai e tive momentos muito felizes com ele.”

O menino ficou muito emocionado, chorou e pulou nos braços da mãe.

A consulta acabou aí.



O menino melhorou na escola, sensivelmente.





Caso 3 – “Meu pai é muito importante para mim...”



Um dia no ambulatório de pediatria, chegou uma avó com um menininho de 5 anos para um consulta médica. O menino não parava quieto: mexia em tudo ao seu alcance – a ponto de perturbar-me a atenção enquanto tentava ouvir a avó. Essa, por sua vez, queixava-se de doenças do neto, numa sucessão interminável de sintomas... Tão logo eu solucionava uma queixa, ela iniciava outra queixa nova... Assim, percebendo que não havia meio de prosseguir com sucesso, disse para a avó “Esse menino tem que ter um problema, não é mesmo?” E ela retrucou “O Sr. está certo, ele é muito problemático mesmo!”

Perguntei pela mãe e pelo pai dele e a avó, que era mãe da mãe, disse “O pai dele não presta!” Ao indagar a ela o significado exato disso, recebi a seguinte resposta “Ele engravidou minha filha e outra mulher quase ao mesmo tempo, deixou-a grávida e ainda por cima, usa drogas!”. Quando perguntei pelo contato que o filho tinha com seu pai, ela me disse “Graças a Deus ele não conhece o pai!”

Ciente da profunda lealdade inconsciente das crianças com os pais, especialmente se são desdenhados, criticados ou excluídos, eu então disse “Nesse caso, tenho que avisar a senhora que ele ficará igual ao pai!”

A avó disse “Não diga isso doutor! Seria a pior coisa do mundo se acontecesse!”

Percebi que não haveria meio de explicar a essa avó sobre a lealdade do neto ao próprio pai. Então me veio uma idéia: chamei o menino para meu lado da mesa, pois eu ainda estava sentado de frente para a avó, na mesa de entrevista. Ele veio, tranqüilo. Disse que gostaria de mostrar algo para a vovó e que queria fazer com ele uma espécie de “brincadeira”, e perguntei se ele “topava” fazer. Como a resposta foi positiva, disse a ele para olhar bem dentro dos olhos da vovó e repetir certas frases que eu iria dizer, mas ele só deveria repeti-las se o coraçãozinho dele estivesse com vontade de fazer isso. Diante da concordância do menino, e do fato de que ele imediatamente fitou a avó, de forma serena, bem dentro dos olhos, decidi prosseguir.

Pedi ao menino que dissesse “Querida vovó”. Ele repetiu bem sereno, olhando nos olhos da avó “Querida vovó”. Em seguida sugeri a frase “Me olhe com carinho se eu tenho um grande lugar no meu coração para o meu papai – ele me faz falta”. O menino hesitou por alguns segundos e depois repetiu a frase, olhando nos olhos da avó e soltando uma lágrima silenciosa, ao mesmo tempo. A avó viu aquilo em silêncio e ficou profundamente emocionada. Depois de alguns minutos o menino foi para o colo da avó, bem quieto e se aninhou lá. A agitação e inquietude dele cessaram. A avó ficou muda. Lágrimas rolavam de sua face. Depois de um tempo, quando estendi a ela a receita para solução de algumas das queixas médicas do menino, ela me disse “Hoje o Sr. me deu uma grande lição! Vou levar meu neto para conhecer o pai dele. Afinal, se ele não tivesse engravidado minha filha, não teria esse menino, e ele é a luz dos meus dias!”

Soube depois pelo pessoal do posto de saúde que ele tinha melhorado muito no pré-escolar da creche onde estudava, tinha conhecido o pai e ficado muito mais calmo depois disso.



Concluindo, com a experiência de outros e a nossa tem demonstrado, muitas vezes as dificuldades escolares estão muito ligadas a processos familiares de fundo, muitas vezes a uma exclusão de um membro da família. Na minha experiência de consultório e ambulatório com atendimento a camadas pobres da população, o pai é figura freqüentemente excluída ou gravemente desvalorizada. Acreditamos que o emprego da abordagem de Bert Hellinger ao contexto escolar possa conduzir a soluções de aconselhamento factíveis e simples, embora nem sempre fáceis. Seria vantajoso que se pudesse buscar criar meios de tornar tal abordagem disponível ao pessoal que trabalha com aconselhamento pedagógico e familiar nas escolas de todos os níveis, pois se trata de abordagem simples, não concorrente com outros métodos e que exige poucos recursos para ser implementada.

 

Décio Fábio de Oliveira Júnior - Direitos reservados